Estava remexendo uns arquivos antigos e encontrei um texto que escrevi em 2003, época em que trabalhava e morava no Morro de São Paulo – uma época muito boa e importante, diga-se de passagem!

Lembro que mandei por e-mail para algumas pessoas que as respostas foram as mais diferentes e opostas possíveis: algumas acharam excelente, gostaram muito, enquanto outros perguntaram se eu estava bem pois demonstrava tendências suicidas! (???)

Bom, dê uma lida nesse registro de um fim de semana e me diga o que acha. Mas se prepare: o texto é um pouco longo!

“O fim de semana começa bem … desde a sexta a noite. De praxe, reunião com donos de lancha, guias e donos de agência de turismo. Briga boa, todo mundo lavando roupa suja … a discussão vai até as 10 da noite. Claro, fome grande, afinal o almoço foi rápido e cedo.

Vamos então tentar relaxar, comer uma pizza na Via Brasil, já que não dá pra ir na Forno a Lenha, pois a dona diz que eu a estou “perseguindo e desrespeitando”, só por que ela resolveu colocar vasos de plantas na praça para delimitar qual a área de praça ela “pode” colocar mesas … coisas do Morro.

Doce ilusão conseguir relaxar comendo pizza… afinal, como conseguiria, já que quem me convida é um dono de agência, que claro, quer falar sobre a reunião … depois se juntam a nós alguns donos de pousadas e para arrematar, um marinheiro. Conversa vai, conversa vem, o assunto chega enfim a falta de água em Morro. Pelo menos eu acho que agora vão me deixar quieto, já que sabem que a Prefeitura não tem nada a ver com isso. Outra ilusão que durou até alguém ter a feliz ideia de trazer água num “trator tanque” que subiria até a Vila. Claro que isso passa pela proibição de tratores na praia e na Vila. E solução que só criaria mais problemas, pois não tem a menor possibilidade de abastecer todo mundo, o que traria mais confusão e insatisfação de quem não recebeu água. Mas já é tarde, umas duas da matina, e ainda tenho que acordar cedo no sábado para recepcionar uma galera de TV que vem fazer um programa sobre Morro.

Sábado, 8:30 da manhã, terminal de Morro, esperando a galera chegar. Sábado, 9:00 da manhã, terminal de Morro, esperando a galera chegar. Sábado, 9:30 da manhã, terminal de Morro esperando a galera chegar. Dá para ficar o dia inteiro numa boa, se não fossem as pessoas que acham um absurdo pagar R$1,00 de Taxa de embarque, as piadinhas de vereador bêbado, as confusões dos lancheiros, os palavrões dos educados “informantes” de turismo. Sábado, 10:30 da manhã, terminal de Morro, enfim chega a galera. Filma daqui, filma dali, vai até a pousada botar bateria para carregar, eu e o câmera no forte, acaba a bateria. Meia hora depois chega o repórter e o ajudante com as outras baterias. Filma forte, filma piscinas, filma repórter falando. Caminhada pro farol, batendo papo, falam que é ensaio, repórter com microfone na mão, eu soltando o verbo, termina a conversa, alguém fala “valeu”, e foi tudo gravado, domingo que vem, depois do Fantástico, “Bahia em Revista” eu falando bobagem … tomara que eu não perca o emprego! Depois de passar o dia rodando com os caras, tomar um banho, deito finalmente na rede para descansar um pouco. Cinco minutos depois, chega o vizinho, pagode alto rolando. Pelo menos depois de fingir que atendo o celular e falo alto que estou deitado na rede, o cara se toca e abaixa o volume. Mas aí já é hora de voltar para a rua, ver o movimento. Olha a galera da filmagem de novo, entrevista aqui, entrevista ali, filma aqui, filma ali. “E aí Carlos, vamos comer uma pizza???” Acho que deu para ver o sorriso amarelo quando respondo “Vamos …”. Pelo menos a pizza acaba cedo, dá para ir no restaurante do lado, ficar na sacada em cima do Foom, curtindo o sonzinho legal que ele faz com a viola, vendo o movimento e tomando um bom vinhozinho tinto. Só não foi 100% esse momento por que o vinho era argentino … mas até que ele era bom!

Pessoas passando, amigos conversando, galera paquerando, casais apaixonados. Engraçado como fica mais forte a saudade dos conhecidos, dos amigos, dos camaradas, dos irmãos, da família, das paixões. É do que sinto mais falta. Falta aquela companhia, aquela galera fiel, que está do lado incondicionalmente, que dá para confiar. Sete meses em Morro, muitos conhecidos, um ou outro amigo, um meio camarada, muitas paixões, muitas decepções. Mais decepções com pessoas em sete meses do que em 26 anos. Deve ser por isso que os dias mais alegres por aqui são os dias em que tem alguém lá em casa. Aí só felicidade, só alegria. Tanto faz, só um camarada ou a casa entupida, como foi na virada do ano. O mais chato é a tristeza na volta para casa, vazia, depois que todo mundo se foi. Uma taça para mim, outra para o Foom. Se todos argentinos fossem assim, o mundo era outro. Grande figura, grande família. Um pouco de inveja e admiração por um cara que curtiu e curte muito a vida, e criou três filhos só vendendo pastel na praia de dia e a noite na praça, acompanhado da sua viola. Como é ótima companhia, e bom apreciador de vinho, lá vai uma taça lá pra baixo. Seca a garrafa. É está na hora de ir embora, afinal, domingão é dia de acordar cedo para mergulhar, e o mergulho de amanhã promete!

Domingo, 06:00 da manhã, terminal do Morro, na hora marcada, esperando a galera. As 06:40 embarcamos, seguindo para o norte. Galera nativa, eu, mais dois mergulhadores e três pescadores. Seis no total. Já tá parecendo estória de pescador. Navegamos quase duas horas até o local, no caminho, pesco duas sororocas e uma cavala na linha de arrasto, uma sororoca deve dar uns 2,5Kg, a segunda maior da pescaria. O resto da galera também está pescando bem. Ficamos circulando numa área, e dá-lhe peixe. Até a hora que alguém começa a prestar atenção na água azul cristalina abaixo do barco e comenta: “cara, dá para ver os peixes passando!”. Mergulhadores safos, olham para a água, se entreolham e começam a arrumar as coisas para cair dentro d´água. Tudo pronto, pula o primeiro, pula o segundo, pula o terceiro. Boias na água, aí começa a curtição. Água cristalina, fundo incerto. Primeiro mergulho, descubro o mistério do fundo. Catorze metros de profundidade, fundo de cascalho fino e lodo. Fica uma lâmina de uns 30cm de água turva acima do fundo, por isso não dava para enxergar. Fora essa faixa, água limpa até a superfície. Na meia água, sororocas e cavalas nadam tranquilamente. Incrível como me sinto a vontade, me sinto em casa. Fica difícil descrever a sensação, não sei qual a melhor, estar no mar ou estar apaixonado. Melhor as duas ao mesmo tempo. E por falar em tempo, tempo de tranquilidade, tempo de calma, tempo de não pensar em nada, de não se preocupar com nada, de fazer algo que gosto muito, de fazer algo que sei fazer bem. Tempo muito precioso.

Na correria para cair na água, esqueço as luvas e o pior, a fieira. A luva menos mal, com a prática e experiência elas se tornam desnecessárias, já não me machuco mais para segurar peixe ou lidar com o equipamento. Mas a fieira … aonde colocar o peixe?? E como tem peixe! Algumas vezes não preciso nem mergulhar, dá para dar um bom tiro da superfície mesmo! Mas por sorte, o barco está próximo, dá para chamar e rapidamente já estou com tudo pronto, mas ainda sem as luvas. Agora sim, a brincadeira começa! Meia água, uns 7 metros, lá vem um grupo de umas cinco sororocas. Uma me interessa. Arbaleta pronto, mira pronta; passa a primeira, passa a segunda, a terceira e finalmente ela. Tiro não tão certeiro, atrás da cabeça mas não no apagador, nem tão pouco pega a espinha. Êta briga bôa. Ela sai doida, brigando, tentando fugir. Seguro firme a seda numa mão, arma na outra, vou subindo a superfície e puxando a presa. Ela parada, vem vindo suave. Antes de chegar na superfície, quase lá, outra tentativa, num estouro de energia, nada forte tentando ir para o fundo, claro, me puxa para baixo um pouco. Puxaria mais, se não soltasse a seda (corda) e só segurasse a arma. É mais que suficiente para chegar a superfície, afinal, só de laçada livre são 5 metros. Da superfície mesmo começo a puxá-la novamente, sem novas surpresas. Seguro o peixe com a mão esquerda, com a direita, faca no apagador. Momento mais chato, sentir o peixe estremecer na sua mão, perdendo a vida. Sororoca na fieira, do comprimento da minha perna. Mais que um palmo de largura. Mesma família da cavala e da barracuda. Peixe de passagem, predador, carnívoro. Boca cheia de dentes. Um tiro maldado, segurando da forma errada, é garantia de uma mordida. Fieira de náilon grosso, não vai aguentar os dentes afiados. Problemas a vista. Improviso. Tudo certo, vamos continuar. O difícil vai ser achar outra desse tamanho, mas vamos lá. Vem a segunda, a terceira, a quarta. Muitos tiros perdidos, tiros errados, muitas escapam. A boia comprida, inflável, antes na horizontal, agora com uma extremidade para fora da água, pois a outra afunda com o peso dos peixes. Como sempre acontece alguma coisa, ao armar as borrachas no segundo estágio do arpão, para mais força e tiro mais longo, não percebo a laçada em cima do engate do arpão, o que não permite fixar corretamente a terminação, então logo após soltar as borrachas elas escapam. Depois de quase hora e meia ou duas horas na água, pele fraca por tanto tempo imersa, não saio do ocorrido sem um corte relativamente fundo e comprido na lateral do dedo anular, um outro buraco no dedão e pequenos cortes nos outros dedos, tudo isso na mão direita. A esquerda intacta. Agora senti falta da luva. Mas vamos continuar, ainda dá para armar o arpão! Mais alguns tiros, e lá vem o barco, querendo ir para outro lugar. Lá embaixo elas continuam passando calmas, como se eu não estivesse ali.

No barco, mão escorrendo sangue, só tem vinagre para desinfetar. Ô dor boa! No caminho para o novo local, água, bananas e maçã. Segundo local, dentro d´água com luvas, roupa e nova fieira, de arame, agora não tem problema. Só o lugar que não ajuda muito. Água mais suja, devido a hora do dia, já chegou a viração, três ou quatro mergulhos para conseguir ver algum peixe. Mesmo assim o resultado é bom, mais três, grandes. Não ficamos muito tempo, já cansados e pela hora. No caminho de volta, equipamento todo arrumado, começa a contabilidade: 56 sororocas e cavalas e dois bonitos pequenos. Ao chegar de volta pesagem: 63 quilos de peixes. Nada mal para um domingo. Segundo a galera, recorde batido. Fazia tempo não rolava uma pescaria tão boa. Depois de tratar os peixes no barco mesmo, nada como chegar em casa, uma ducha (hoje infelizmente privilégio de poucos, devido a falta de água) e uma rede para curtir o fim de tarde. Pensar nos amigos, nos irmãos, na família, nas paixões. Onde estão? O que estão fazendo? Estão curtindo juntos? Pena não estarem aqui para poder dividir esse momento. Até que o sono vem, de mansinho, junto com a brisa gostosa do finzinho de tarde, com o farol já aceso.
Engraçado, mas só acordo tarde da noite, com o celular tocando, galera me chamando. Tava todo mundo junto, se perderam, separaram, um sem o número do outro, outro sem o número de um, eu no meio da confusão, dando o número de um para o outro, e do outro para um.

Essa galera …

Ainda vou dar uma volta na Vila, afinal, estava morrendo de fome. Foram seis bananas e duas maçãs até então. Ponto de parada certo, pastel do Foom, pastel bom, som legal, pessoas passando, amigos conversando, galera paquerando, casais apaixonados … e bate novamente a saudade … e tem gente que não acredita quando digo que vou pra Salvador relaxar … pelo menos tento!
Agora que estou vendo o tamanho do livro que escrevi, apesar da mão toda cortada e dolorida, vou pedindo desculpa aos mais atarefados, aos mais estressados, aos mais chatos que não gostam de parar pra ler, pois eu sou meio assim, sei como é. Mas foi um jeito de desabafar, de contar o que está acontecendo, dar um alô, de manter contato, de compartilhar algumas experiências com pessoas que gosto, de quem sinto falta.

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